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Entrevista com Márcio Seixas para a 2ª edição de 1995 da Revista Animação, aonde ele conta o começo de sua carreira, seus personagens e seu ponto de vista sobre vários aspectos da dublagem.

Uma boa dublagem é fundamental para que um desenho animado torne-se um sucesso. Nos Eua, Batman, As séries animadas recebeu vozes ilustres, das quais podemos destacar Mark Hammil, o Luke Skywalker de Guerra nas Estrelas, como o Coringa. No Brasil, teve-se o mesmo carinho e preocupação. Tanto, que chamaram um dos profissionais mais competentes da área para ser o Batman. Animação traz em primeira mão uma entrevista exclusiva com

Eu comecei na dublagem em abril de 74, vindo do rádio, em Belo Horizonte. O Herbert Richers publicou um anúncio no Globo, oferecendo chance para pessoas que tivessem boa leitura. Eu estava desempregado no Rio e corri para me inscrever; fiz a inscrição junto com 330 candidatos – quem pode dar o número com mais exatidão é o Waldir Fiori, o organizador de um curso de dublagem que só pecou por ser curto, já que tinha tudo para ser uma escola de aprendizado e aperfeiçoamento de dublagem.

 

Na primeira seleção, que era a leitura, sobraram 30 e poucos candidatos; numa nova peneirada, sobraram 16 com condições de ler, interpretar e aprender. Desses, 14 abandonaram o período de adaptação, pelos mais variados motivos. A maioria foi pelo clima grande de hostilidade contra essa escolinha, a ponto de se verbaliza-la. Quando nós entrávamos no estúdio para fazer aquelas participações tímidas em vozerio de festa, vozerio de rua e outros papéis pequenos – por onde se começa a dublar -, os veteranos diziam: “Lá vêm os alunos do divino Mestre. ”, parafraseando o mestre chinês da série Kung Fu, que fazia sucesso na época. E o Fiori ficou sendo chamado jocosamente de “Mestre” pelos colegas, veteranos como ele, porque ensinava a gente. Eu lamento por muitos desses que desistiram, pois iam dar excelentes profissionais. Tinha uma dona-de-casa que era formidável, cantores de ópera, um ator teatral...E essas pessoas não aguentaram o clima de hostilidade lá dentro. Então, ficamos só dois, agüentando. Quando os 14 foram embora, aí nos deram o privilégio de nos cumprimentar de vez em vez, um ou outro dava uma explicação. E a gente muito timidamente foi chegando.  

Mas enfim, nós conseguimos superar tudo isso; aqueles que nos hostilizaram, hoje são colegas maravilhosos de quem gosto muito, mas eu tenho vontade de perguntar para que isso tudo.

Por causa do que eu sofri, hoje tenho muita paciência e procuro ensinar àquele que tem vontade de ser profissional. Porque não se engane. Agora a minha visão é outra. Estou com 20 anos de dublagem e vejo pessoas de uma arrogância, de uma falta de respeito, entrando nesses cursinhos que andaram fazendo, que se estivessem na época talvez fossem eliminadas pela própria arrogância. Dubladores novos, sem a menor experiência... Mas têm outros pelos quais eu tenho muita simpatia, admiro e ajudo, dando indicações. Dentre estes, eu computo o Guilherme Briggs, de um talento extraordinário, um dublador muito bom, tal a facilidade dele em mudar de voz e assumir a personalidade do "boneco" que está na tela.

Então, eu comecei a dublar em 1974. No mesmo instante, entrei na Rádio Jornal do Brasil, de onde saí em Novembro passado. Atualmente estou na Cbn, apresentando o Plantão Cbn Brasil Especial. É Raro eu dublar nas outras casas, por causa dos meus afazeres: eu gravo comerciais, sou locutor, gravo vinhetas para a Transamérica. Daí, por opção, preferi fazer da Herbert a minha casa de trabalho na dublagem. Sempre que as outras me chamavam, eu estava ocupado em outros filmes, e nisso elas, por fim, passaram a não me procurar mais.

Como foi a redublagem de Jornada nas Estrelas?

 

Houve resistência, porque a série já estava consagrada. Os trekkers acompanharam de perto esse processo, inclusive indo todos os dias de dublagem e fornecendo uma assessoria que foi muito útil, porque tinham coisas que não entendia, como terminologia, filosofia, aspectos do personagem (eu fui chamado num dia, e no outro já estava dublando).

 

Eles manifestaram temor quando fui chamado para fazer o Spock e me disseram isso. Não houve clima de animosidade. Houve desconfiança. Eu dublava e eles ficavam na técnica, acompanhando. Eu me sentia muito mal e perguntava se era assim, se estavam gostando. Mas à medida em que eles foram acompanhando e dando assessoria à diretora, foram relaxando e o trabalho pôde prosseguir bem. Acho que nós conseguimos redublar a série sem fugir. Tínhamos a nossa própria adaptação de texto em função do movimento labial. E foi bem fácil dublar o Spock. E agradável. Adorei dublar o Leonard Nimoy.  

Dentre os seus personagens, qual foi um verdadeiro desafio fazer?

O computador Hal, do filme 2001, Uma Odisséia no Espaço. Computador não respira. O Hal tinha textos enormes, principalmente na partida de xadrez com o astronauta. Eu enchia os pulmões, tivemos de usar os recursos de edição, porque eu não podia mostrar respiração na fala, nenhuma inflexão, nenhuma emoção. Tinha de fazer uma coisa bem linear.

Em desenho animado a dificuldade é a mesma?

Não. Desenho é bom de fazer.

Eu sempre tive muito preconceito contra desenho, sempre achei desenho uma coisa meio sem respeito com criança. Qualquer voz que você fizesse estava bom, sabe? Vi muita criança brincando com as expressões da dublagem, repetindo frases que idiotizavam a brincadeira. Acho isso muito chato. Eu procurei na medida do possível me afastar desse tipo de desenho sem nenhum movimento a não ser da boca do personagem, onde você não podia exercer a sua criatividade. Era muito raro surgir algo como Barbapapa, dublado pelo Pietro Mário (Capitão Furação), uma obra-prima, uma coisa extremamente agradável de se fazer. Eu babava vendo aquilo. Mais para cada Barbapapa que surgia na dublagem, apareciam outros duzentos porcarias para a gente dublar.

Então, com a desculpa de fazer narrações dos filmes da Disney e eventualmente participar na ação do narrador com o desenho, eu sempre consegui sair das escalações dos demais. Eu preferia não misturar minha voz com os outros desenhos e isso o pessoal, até para minha surpresa, respeitou e eu passei a maioria dos anos da minha vida profissional sem dublar desenho animado.

E quanto a Batman?

Batman foi um prêmio na minha vida profissional. Eu acho que não vou fazer mais nada melhor que Batman. Eu sempre disse para o pessoal da Disney: "Para vocês terem uma idéia do que é a minha paixão pelo meu trabalho da Disney, eu trabalho porque sou profissional, é daí que eu mantenho a minha família. Mas se um dia vocês disserem que vou passar a dublar Disney sem receber um centavo eu continuo gravando pelo amor que eu tenho pela série". Falo a mesma coisa do Batman. 

Sua primeira série foi...

Arquivo Confidencial. Eu conheci a maquiadora do James Garner aqui Rio, aonde ela veio acompanhando o marido, um dos managers da Disney. E ela me falou muito bem dele.

Eu sinto pelo James Garner uma gratidão enorme, porque quando comecei a dublar Arquivo, a minha vida mudou radicalmente. Eu trabalhava com orçamento apertado - ninguém hoje em sã consciência pode viver exclusivamente da dublagem, a não ser que viva num padrão muito modesto. Tem que gostar muito, como eu gosto. Então, a minha vida sofreu uma transformação imediata. Tão logo a série estreou, começaram a me chamar para trabalhos de publicidade; as pessoas da área adoravam o Jim Rockford e as minhas brincadeiras em cima daqueles textos. A partir daí, eu passei a ter um pouquinho mais de conforto. Graças ao James Garner.

Eu sinto por ele o carinho pelo benfeitor. Eu adorava o antigo Maverick, que eu via na cabine de locução da Tv onde eu trabalhava, em Belo Horizonte. E adorava a dublagem do Milton Rangel (Zandor). E olha o destino: eu aqui aprendendo dublagem, faço o teste para o Arquivo e ganho o papel.

Sempre dublei o James Garner. Quando, por acaso ele é dublado por outro colega, chega a dar uma dorzinha no coração. No bom sentido.

Mas cada dublador não tem o seu "boneco" determinado?

Não. Cada ator tem duas ou três opções. Eu dublo o James Garner, mais tem dois outros colegas que dublam. A mesma coisa com o Charlton Heston, Timothy Dalton, Gregory Peck. Isso é porque o elenco é pequeno e às vezes o cara está viajando, ou está ocupado em outros filme, e o filme é urgente. E aí vai a segunda ou terceira opção.

Márcio, de uns anos para cá, tem surgido uma geração nova que como que tem sido privilegiada, em prejuízo dos veteranos. O que acontece com esse pessoal? Você sente que poderia estar trabalhando com muito mais gente?

Poderíamos. Se a dublagem tivesse uma remuneração melhor, nós teríamos mais candidatos. Nesses 20 anos, vi muitos profissionais se aproximando da dublagem, como, por exemplo, Ary Coslov, Selton Mello, Danton Mello... Muitos como eles chegaram, trabalharam, e pegaram o seu contra-cheque no fim do mês e acharam que não valia a pena. No caso do Selton, é um dos profissionais mais perfeitos com quem eu já dublei. A gente perde um valor como esse! É o que está acontecendo com o Patrick de Oliveira, o Fievel. O Patrick encanta tanto as pessoas com quem ele vai trabalhar, pelo profissionalismo, que a dublagem já não está conseguindo leva-lo. O trabalho dele é maravilhoso; mas aí ele vai descobrindo outros caminhos e começa a perceber que lá fora ele ganha tão mais, que se desestimula, não sente mais vontade, passa a não ter mais tempo para a dublagem, embora goste.

Eu vou citar alguns personagens seus e gostaria de suas considerações sobre eles. Vamos iniciar pelo seu "karma", o Homem-Pássaro.

Isso aí eu computo como a pior coisa que já fiz na dublagem. Eu odiava e odeio aquilo. Ainda mais na época em que eu estava em lua-de-metal com a Disney.

Eu posso dizer que o Homem-Pássaro foi uma sacanagem do Luís Manuel (Dorno). Luís Manuel era o rei do desenho animado: ele dublava e dirigia todos. E aí ele me comunicou: "Olha, tem aí um desenho que você vai gostar de fazer. "; "não, não vou gostar não. Nem pense, que eu não vou fazer. "; "não? Aguarda!". Aí, foi lá no Herbert dizer para ele que eu sistematicamente recusava os desenhos onde ele me escalava. E o Herbert um dia chegou mal-humorado na empresa e quis saber comigo sobre eu não gostar de dublar desenhos que não fossem Disney. Eu confirmei, e tomei o maior esporro. E fui dublar o Homem-Pássaro.

Quando entrei muito danado da vida no estúdio o Luís já estava rindo. Na realidade, ele já estava achando graça a minha reação quando eu começasse a dar aqueles gritos ridículos. E a cada grito meu, ele gritava numa águia atrás de mim. Então, o Homem-Pássaro eu devo ao Luís Manuel. Foi a pior coisa que já fiz na minha vida. Aquilo era uma idiotice.

Balu.

Balu é um carinho. Foi fácil e muito agradável fazer o Balu. Quando você trabalha com um diretor que gosta do material; quando em comum acordo com os outros dubladores você se encarrega de modificar os vícios da tradução ou adaptar uma situação que pede um outro texto naquela cena; e quando todo mundo se gosta, o trabalho fica maravilhoso. E assim foi a Esquadrilha Parafuso, com a direção de Francisco José. A Esquadrilha Parafuso fez o sucesso que merecia. Era fácil fazer o Balu, era fácil fazer o Beck, a filha dela... Difícil eram o Damião, feito pelo Carlos Seidl (Seu Madruga - Chaves), o Khan, dublado pelo Joaquim Motta (Kojak), o Loius, dublado pelo Antônio Patiño (Tio Patinhas - Duck Tales) com aquela malandragem carioca, e o personagem do Orlando Drummond. 

O Tick.

Eu não me lembro de em vinte anos de profissão ter me divertido tanto, como eu me diverti fazendo o Tick. Para você ter uma idéia, a gente começava a dublar e parava, porque não conseguíamos chegar ao fim. Ríamos tanto, que não conseguíamos fazer. 

Hoje não há mais problemas em se improvisar?

Há bom senso, porque um filme é visto por uma família. O locutor Howard Handupme, da Família Dinossauros, falou "bunda". Eu gravei e a Globo não devolveu. Mas pode devolver. Eles não deixavam falar "cocaína". Esse é um dos momentos mais ridículos da dublagem, repetido à exaustão. Todo mundo está vendo na tela uma apreensão de cocaína. Aí nós somos obrigados a dizer "É muamba da boa. ". Imposição do cliente. No noticiário pode, mas na dublagem não.

Você certa vez desabafou que a dublagem era inglória, que dentre outros fatores submetia o profissional a péssimas condições técnicas. Apesar dos avanços, ainda existe esse problema?

É, porque só aqui se dubla da maneira como nós fazemos. Fora do Brasil dubla-se por linha: o dublador tem uma fita para ele, não precisa dialogar com ninguém. Faz-se depois a mixagem das vozes. Nós não! Nós dublamos 8, 10 pessoas de uma vez, numa única pista. Muitas vezes não se consegue entender. Ao passo que no cinema, na mesma cena, você ouve nitidamente todas as vozes. Mas se a dublagem for utilizar uma fita para cada uma, vão ser tantas cabeças de gravação quantos forem os dubladores. Para quê, se é mais econômico uma cabeça só para todo mundo? Então, somos cinco pessoas discutindo; quando chegamos ao fim, um erra. Voltamos, fazendo o mesmo esforço para acertar tudo. Ele erra de novo, coitado. Voltamos de novo. Agora erro eu. Volta. Eu acerto, esse aqui erra. Até dar certo. Ao passo que se fizéssemos por linha era só mixar depois: ganhava-se tempo, interpretação e qualidade técnica. Mas isso é uma grande utopia.



O que você diria ao final da nossa conversa?

Eu gostaria muito de ver um curso de dublagem administrado pelo Waldir Fiori, para a formação de bons profissionais. Quem tem talento, entra; quem é picareta, vai embora. Mas é uma utopia, porque quando a pessoa que a gente prepara começa a comparar o que recebe todo mês, prefere partir para outras iniciativas. Adoraria ver a dublagem bem paga, porque o nosso elenco seria bem maior. Teríamos muito mais talentos.

E quanto aos detratores?

Os detratores vão existir sempre. Jornalistas antigos, jornalistas novos... Mas para mim, o detrator mais antipático da dublagem chama-se Jô Soares.

Como é que pode um sujeito inteligente, culto como ele, que assiste a espetáculos na Broadway sem intérprete, implicar com a dublagem? A dublagem não é feita para o Jô Soares: é para o povão. Ele mora em mansões. E está sempre nos sacaneando, de uma forma muito antipática. Eu fico muito magoado com isso. Ele recebeu o meu amigo Murilo Salles falando mal da dublagem. Gratuitamente! O Murilo nem se interessa pela coisa e foi induzido a falar mal.

Então, eu queria dizer para ele (e para os outros): deixe a dublagem em paz, pelo amor de Deus.

Agradecimentos ao Centro Cultural da Juventude de São Paulo pelo Material.